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sábado, 6 de junho de 2015

Contos de Terror - Último suspiro

Contos de Terror - Último suspiro















Por Camila Torbezz


Era uma noite calma, como todas as segundas-feiras. Do céu caía uma fria garoa que em contato com meu corpo proporcionava um arrepio desigual. Tinha recém-saído da aula de economia que hoje se prolongou por mais duas horas, o professor estava com um fôlego, louco para contar suas experiências da viagem à China. Pelo atraso da aula, perdi meu ônibus e tive que voltar sozinha pelas escuras ruas da cidade. Todas as lojas já haviam fechado e pela calçada os poucos que circulavam desapareciam ao entrarem em suas casas. Coloquei meus fones de ouvido para tornar a caminhada mais curta, escutava a quinta sinfonia de Beethoven, tal música me trazia uma paz interior inexplicável. A cada minuto de caminhada parecia que as ruas se tornavam mais escuras e vazias, já não se viam mais carros passando e muito menos pessoas, até as luzes das casas já estavam apagadas e ainda nem se passou da meia noite, havia algo de estranho acontecendo, disso eu tinha certeza.

Comecei a apressar os passos com anseio de chegar em casa logo e correr para os braços de meu marido, que já devia estar preocupado. Estava com a sensação de ter alguém me observando, mas quando procurava em volta, nada encontrava. A cada passo que dava uma gota de suor frio escorria pelo meu rosto, me dei conta que já estava correndo e tinha a certeza que alguém corria atrás de mim.

Não tinha mais forças para olhar para trás, ver quem era, saber o porquê me perseguia loucamente, só não via a hora de chegar em casa segura com a sensação de que tudo passou.

Eu não tinha mais fôlego para correr, decidi parar, me entregar ao desconhecido. Dei meu último passo, meu último suspiro e olhei para trás.

Não havia ninguém, nem ao menos um gato, a rua estava vazia como quando comecei minha caminhada. Pensei estar louca, mas me senti aliviada por ser apenas uma alucinação. Fui andando para minha casa e quando abri a porta dei um suspiro com tanto vigor, como se agradecendo por estar viva. E eis que, ao fechar a porta, encontro um estranho, vestido com um capuz preto, segurando uma faca ensanguentada e me admirando com um olhar maquiavélico. Aquele com certeza foi meu último suspiro.


Contos de Terror - Força mortal

Por Alexandre Cthulhu


Quero a minha vida de volta

Destruidora abstinência
Ilustre indulgência
Que me mantém forte,
Apesar da morte!


A espada brilha no altar
O sino badala estridente
Oh, alma indolente
Que teima em não ressuscitar

Liberta a força que há em ti
Pobre ser vivo
Esquartejado e sacrificado
O teu sangue derramado
Sob o pentagrama
Enquanto eu jazo na lama
Das trevas

Satan,

Livrai-me do vómito
Livrai-me do óbito
Traz-me à vida
Não pela ceifa
Mas pela meita
Amo poderoso
Meu ser fogoso
Pelo murmúrio do vento para além do Norte
Pelo murmúrio do vento para além do Norte
Pelo murmúrio do vento para além do Norte
Fujo da morte
Faz-me Forte!
Fujo da morte
Faz-me Forte!


O meu nome é Abaddon, nome hebraico que significa destruidor.


Sou líder de uma banda de black metal, chamada “mortal Terror”. Há dois anos gravámos uma demo, e neste momento estamos a preparar o nosso primeiro álbum de originais. A banda ambiciona crescer e afirmar-se no panorama nacional e internacional de Black metal. A cover art (1) para a nossa capa foi encomendada à empresa luciferium war graphics, e as misturas finais do album vão passar pelas mãos de Eirik Hundvin, respeitado produtor Norueguês, mais conhecido por Pytten. Ele produziu álbuns de bandas como os Gorgoroth , immortal e Burzum. Este último, estava actualmente preso por ter sido condenado a 21 anos de prisão por ter assassinado euronymous, outro músico do meio black metal norueguês.


Eu sou guitarrista, vocalista e também escrevo todas letras das músicas. Este poema (força mortal) é o tema principal do trabalho que os “mortal Terror” vão lançar, intitulado “Oraculus diabolcum”.


Onde me inspirei para o escrever?

Apenas na minha essência, numa viagem longa que eu fiz pelas profundezas do meu ser, onde contactei com o meu verdadeiro eu - e me descobri satânico!


Após ter tido esta tomada de consciência, vasculhei tudo em busca de livros que me ajudassem a fundamentar esta minha convicção interior. Foi quando obtive o contacto de um grupo satânico da zona de Sintra, e após algumas insistências da minha parte, lá consegui ter uma reunião com eles, até que me aceitaram no grupo e me concederam o livro proibido: A “Bíblia satânica”.


Não nascemos ateus nem cristãos. Nascemos satânicos!

“Satan é indulgência e não abstinência!

Satan representa todos os denominados pecados, uma vez que todos eles conduzem à gratificação física, mental e emocional”



“Toda e qualquer criança é satânica assim que nasce e, à medida que vamos crescendo vamos perdendo toda a pureza e tornamo-nos “noutra coisa” diferente, por influência ou por imposição.”


Tenho reflectido muito sobre os dogmas da religião e sob os quais a nossa educação é erigida. A religião não é dada como algo garantido à nascença. Porquê que a religião cristã nos leva a negar os frutos da vida?

Porquê que temos que renunciar ao prazer dos sentidos?

Esta moralidade é uma fraude.

Enquanto crianças, somos indulgentes - Não nos privamos dos nossos desejos naturais e inatos. Fazemos tudo para obter o que desejamos num determinado momento.


Para o satanista o “diabo” é apenas uma figura cristã.

Eu venero-me a mim mesmo. Satan é uma palavra de origem hebraica, que significa” adversário”, opositor”, “inimigo”. Satan é o “opositor” de todo e qualquer Deus. Assim, o único Deus que eu reconheço, sou Eu próprio!


Assim diz a bíblia em que eu acredito – A satânica!


A minha mulher, Ângela, uma musa lindíssima que conheci num concerto dos “Moonspell”, não partilha desta minha tendência ideológica, mas é uma fiel companheira e uma excelente teclista - Eu amo-a acima de tudo.
Ela corresponde-me com todo o seu amor e pureza.

O mesmo já não posso dizer dos meus pais, que não aceitam esta minha atitude (o tornar-me satanista, e formar uma banda que invoca a morte, a violência e Satanás). Eles simplesmente cortaram relações e viraram as cotas a mim e à minha querida Ângela.

Eu até respeitava esta tomada de decisão por parte deles, pois em toda a sua vida foram Católicos praticantes, mas por mais que eu lhes tentasse explicar que, ter-me tornado satanista não implica adorar o demónio, eles simplesmente não aceitam.


Infelizmente, a decisão que eles tomaram foi a mais fácil: banir-me da família e deixarem de falar comigo. Compreender um jovem e entrar no mundo dele é sempre muito complicado para os progenitores… infelizmente.



O afastamento deles foi tao grande que até começaram a tecer mentiras sobre a minha pessoa. Sempre que eram questionados acerca da minha banda, eles desmentiam, inventando que não era eu o vocalista, mas sim alguém parecido comigo. Quando alguém lhes perguntava por mim, respondiam que eu tinha ido estudar para um colégio particular, em Lisboa.


Bem, a verdade é que eu e Ângela vivemos com sérias dificuldades financeiras!


Além da banda, eu e Ângela não temos absolutamente nada, (enquanto eles têm tudo). Eles devem ser as pessoas mais ricas da região de Ílhavo: São ambos médicos de profissão e são proprietários de duas clinicas de diagnóstico e radiologia. Ostentam luxos extravagantes, e habitam numa moradia enorme que lhes custou 200.000 euros!

Enfim, têm mesmo “tudo”, e ela tinha muita inveja disso!


Na segunda-feira passada, o proprietário da garagem onde a banda costuma ensaiar ameaçou-nos com uma acção de despejo, pois já tínhamos 2 meses de renda em atraso, - as economias dos “Mortal terror” tinham sido todas gastas na produção do álbum e o pouco dinheiro que sobejara, nem chegava para pagar a renda de um mês.

Andava ensimesmado em arranjar soluções, mas n as vislumbrava em lado nenhum, até que decidi ligar aos meus pais para me ajudarem. Mas a reacção deles ao telefone, foi muito má, acabando até por me por me rebaixarem e humilharem. Em fúria, desliguei o telefone na cara deles, completamente enlouquecido, pois fizeram-me sentir como se fosse um mendigo. O meu pai até teve a ousadia de me comunicar que me tinha deserdado, e que já tinha falado com o advogado da família para me excluir do seu testamento.


Quando regressou a casa, a minha doce Ângela não me conseguiu acalmar.

- O que eu mais queria era que eles morressem! – Bradei desesperado e cheio de fúria.

- Tem calma, meu amor. Eles não merecem o filho que têm! – Sussurrou-me a minha amada, numa tentativa vã de me consolar.


Eu era filho único.


Durante toda a minha infância todos os mimos e atenções eram apenas dirigidos a mim. Nunca me preocupei em arranjar emprego ou dedicar-me aos estudos, pois achava que tudo o que eles possuíam, um dia seria meu… mas afinal estava enganado.


Aos 15 anos comecei a sair e passei a assistir a concertos de bandas de Heavy metal, o que me influenciou de tal modo, que até deixei crescer bastante o cabelo. Gostava de me vestir apenas com cores negras. Fiz várias tatuagens com imagens satânicas e adornei o meu corpo com vários brincos, e piercings.

Mais tarde, formei a minha primeira banda de Heavy metal, Os “Black Demon”. Tocávamos em bares e pubs, mas nada de original, apenas covers de bandas de Heavy e thrash.

Mais tarde formei os “Terror Mortal”, e passados dois anos, ganhámos um concurso de bandas Hard Club de Gaia, o que nos ajudou a gravar uma demo. Até aqui tudo bem, mas o que deixou os meus pais em pânico, foi a capa do CD, pois era uma exibição clara do demónio a possuir sexualmente uma freira. O conteúdo das letras era bastante agressivo, pormenor, que os deixou estupefactos.

Depois conheci a Ângela e mais tarde, saí de casa dos meus pais e fui viver com ela para um pequeno anexo alugado.

Ela e a banda eram a minha vida- mais nada me interessava. Mas este não era o futuro que eles tinham idealizado para mim. Então passei a ser tratado como um “bastardo”. Depois decidiram castigar-me” da forma mais rude que eu podia alguma vez imaginar – negarem-me tudo a que tinha direito.

Na sexta-feira, após ter estado a ensaiar com a banda, voltei a casa um pouco deprimido, pois tinha discutido com os restantes elementos da banda devido a divergências que já começavam a rebentar entre nós. Eu andava nervoso, pois não sabia como resolver estes problemas.

- Odeio os meus pais. O que eu mais queria era que eles morressem! – Desabafei naquela noite. Sentia-me desesperado.

- Eu também os odeio, amor. – Redarguiu Ângela num tom pesaroso.

- Se continuarmos assim, vamos ter de parar com a banda, amor.

- Mas a banda é tudo o que temos, querido. Foi tudo pelo que sempre lutaste – Afirmou ela.

- Não dá, amor. Temos que arranjar dinheiro. Temos que parar com a banda e arranjar um emprego, sei lá...

- Não, lindo! Os teus pais têm que nos ajudar. Eles são ricos, porra!

- Sabes que não posso contar com eles para nada. Até já me deserdaram, como tu sabes!

- Porque tu deixaste! A tua religião diz, “Satan representa bondade para aqueles que merecem e não amor desperdiçado em ingratos”. “Satan representa vingança e não dar a outra face”! – As palavras dela espancaram-me como murros no meu estômago.

“A tua religião diz… a tua religião diz… a tua religião diz… “


Paulatinamente, mas também de uma forma subtil, Ângela precipitou-me para “aquele abismo” que Allan Poe descreve no seu “Demónio de perversidade”, impelindo-me para os limites da minha loucura.
“Se algo lhes acontecesse, tudo aquilo seria nosso”...”Eles tratam-nos como mendigos, quando dizemos que precisamos da ajuda deles”...”Parece que gostam de mandar nas nossas vidas”...


“Algo tem de ser feito, Abaddon, faz algo”... “Algo tem de ser feito, Abaddon, faz algo”... “Algo tem de ser feito, Abaddon, faz algo”...
Estas frases, repetidas e proferidas pela voz doce e musical da minha linda Ângela, badalaram lugubremente no meu espírito, assolando-me noite após noite, até à data do eclipse solar, que coincidia com uma enigmática sexta-feira, dia 13 de Agosto.


Nessa manhã acordei completamente alucinado. Tinha sido atormentado durante toda a noite por pesadelos apavorantes. Olhei em redor do quarto, e apercebi-me que Ângela já tinha saído.
Sobre a mesa-de-cabeceira estava um bilhete deixado por ela:


“Meu amor,

Na vida, temos poucas oportunidades para sermos felizes. Só se é realmente feliz quando fazemos aquilo que amamos, aquilo que nos ferve por dentro. Se achas que devemos ir trabalhar, tudo bem. Mas lembra-te que tens uns pais ricos, e se eles te deserdaram, (não tendo eles mais filhos), a quem vão deixar aquela fortuna toda? À igreja?...

Pensa nisto.

Volto à noite

Amo-te para sempre.

Beijos

Ângela”


A minha estimada Ângela tinha razão. Pois os meus pais fartavam-se de doar dinheiro à igreja. Da última vez que a igreja precisou de fazer obras, foram eles que as pagaram. Foram “apenas” 20.000 euros...
Abandonei o apartamento com o desespero na minha alma.


A primeira coisa que fiz foi enfiar-me na tasca que fica logo em frente à minha casa, e logo ali emborquei quatro cervejas.

Segui caminho a pé até à casa dos meus pais, e a meio do percurso parei noutro café, onde bebi mais umas três cervejas com vários whiskys pelo meio. Repeti este ritual nem sei quantas vezes, durante toda a manhã. Ainda não satisfeito, meti alguns speeds no bucho.


Atravessei a ponte e observei a paisagem.


“O rio quando permanece na sua placitude, parece embalar as pequenas embarcações no seu regaço, tal como uma mãe acarinha um rebento no seu colo” – meditei.
Recordei-me da face terna da minha mãe e chorei. Contudo, as minhas lágrimas secaram sob o negror súbito que se apoderou, não do meu espírito, mas do... mundo! O eclipse estava a ocorrer e eu senti-me assombrado. Ai de mim!...


Agora suportava paulatinamente o despertar do assassino que se incubava no meu corpo. Em vão, tentei reprimi-lo, mas a sua malvadez era poderosa e apossou-se vagarosamente da minha alma.

E foi já metamorfoseado neste “carrasco” que me aproximei da casa “deles”.

Oh sim, a noite já mostrara a sua face, mas eu não. Eu não estava possuído! Antes pelo contrário. Os possessos não entendem nada de nada.


Contornei a casa até às traseiras e galguei o muro pelo local onde o fazia sempre, quando não queria que eles soubessem a que horas eu chegava a casa.

Eu estava bem disfarçado. Se alguém me visse, não podia afirmar que era eu - aquele que ali vivera tanto tempo. O “zorro”, o RottWeiller, aproximou-se de mim a rosnar, mas de imediato sussurrei o seu nome e ele reconheceu-me. Dei-lhe algumas festas no corpo, e serenamente fui amarra-lo na sua casota. Afastei –me e fiz-lhe sinal de silencio com o dedo,  o que ele obedientemente acatou.



Trespassei a porta das traseiras e penetrei pela casa dentro. A aparelhagem estava ligada e tocava “Gospel” - (que horror!).


Aproximei-me da sala, mas inesperadamente fui surpreendido pelo meu pai. Nem olhei para o rosto dele.

Puxei do punhal e descarreguei-lhe vários golpes acertando onde calhasse. Ele ainda tentou dar luta, mas quando o atingi no peito, foi quando o vi cair brutalmente no chão, ficando a arfar que nem um animal em aflição. Não imagino quanto tempo mais ele se aguentou naquele sofrimento, mas não deve ter sido muito.

Imediatamente a seguir, dei pela presença da minha mãe. Aproximou-se aos gritos, mas estranhamente, não lhe reconheci a voz.

Atirou-se a mim, tentando-me deter. Elevei o braço para a apunhalar, mas ela conseguiu desviar-se, prendendo-me a mão, mordendo-a depois, ferozmente. Este gesto despertou ainda mais a minha ira, o que me obrigou a desferir-lhe um pontapé na cabeça, que a arrumou de vez.

O efeito do álcool não me deixava ver com nitidez. Por isso esperei o momento oportuno para lhe dar um golpe que a imobilizasse, pois ela já se preparava para fugir em direcção à rua.


Ergui-me e corri atrás dela, prendendo-a pelo pescoço. De seguida, atirei-a ao chão e atingi-a com a lâmina no braço direito, o que a fez gritar estridentemente, ficando agarrada ao membro ferido. Num ímpeto, saltei para cima dela e desferi-lhe várias punhaladas no peito. O último golpe que lhe descarreguei tirou-lhe de imediato a vida. Ela nem gritou nem gemeu, apenas ofegou durante uns segundos, depois desfaleceu. Não perdi tempo a certificar-me se respirava ou não. Coisa estranha matar pessoas. Não é diferente de matar um animal, sabem?


Estava feito. O meu tormento tinha terminado ali, naquele momento.

A aparelhagem ainda tocava os horríveis cânticos religiosos. O Zorro agora ladrava estridentemente e ouvia-se em toda a vizinhança. Não havia de tardar, que a curiosidade daquela gente ávida por coscuvilhice aparecesse ali a bater à porta, para saber o que se estava a passar. Seguidamente, viria a polícia eu estava fodido.

Ting tong! - Hora de abandonar a casa, rápido!


Mas algo me dizia que eu tava a descartar coisas importantes, e eu não podia deixar as coisas assim. Apesar de ter calçado umas luvas descartáveis, eu também estava a sangrar. Portanto havia “provas” que me comprometiam seriamente. Tinha que pensar rápido – O que estava a ser difícil.


Tentei imaginar “algo” que eliminasse estas provas. Lembrei-me de um incêndio, e num ápice dirigi-me à cozinha, onde desapertei completamente a válvula do gás. Depois liguei os quatro bicos do fogão e deixei-os a libertar gás.
Seguidamente, abandonei a casa pelas traseiras e de lá atirei o isqueiro aceso para o interior da residência. O zorro ainda tentou correr atrás de mim na brincadeira, mas eu nem lhe liguei.


Não podia perder tempo nem deixar quaisquer vestígios. Quando o gás alcançasse a chama do isqueiro, havia de se dar uma explosão e em poucos minutos a casa ficaria em labaredas. O fogo consumiria os cadáveres que jaziam lá dentro e assim eu garantia um cenário ilusório de aparente “tentativa de assalto mal sucedido”, cujo intruso recorrera ao incêndio para ocultação das provas.  – Agora sim, eu estava a raciocinar.


Nunca cheguei a saber se a casa explodira ou não, pois não escutei qualquer som, que se assemelhasse a um estouro. Talvez devido à rapidez com que me ausentei do local, calculo. Tinha corrido velozmente pelo meio do matagal que se estendia pela zona envolvente da localidade, que eu tão bem conhecia. Tinha brincado ali durante todo meu tempo de escola...



Ao fim de alguns quilómetros, parei para estabilizar a minha respiração. Doíam-me os músculos das pernas, de tanto correr.

Olhei em redor. Inesperadamente, afiguraram-se-me várias recordações felizes da minha infância. Senti um vazio, e comecei a ficar cheio de frio. O “monstro” tinha-me abandonado. Oh, eu já não era “ele”. Tinha voltado a ser o Zé, como carinhosamente a minha mãe me chamava... – Tentei sacudir essas doces recordações do meu espírito, mas não consegui.


Então continuei a correr. Percorri mais alguns quilómetros até à localidade mais próxima, onde apanhei um táxi, que me levou até casa. Só pensava em cair nos braços da minha doce Ângela.


O apartamento estava estranhamente silencioso. Imaginei que ela pudesse ainda não ter voltado. Mas ela surgiu, vinda da sala, fascinantemente bela como uma diva. Trajava uma camisa de noite comprida, negra e transparente, que lhe realçava a sua volúpia desconcertante. O seu cabelo cor de Cobre estava completamente solto e caia-lhe sobre os ombros. Oh, como eu amava aquele seu estilo gótico, que tanto me seduzia e me deixava louco.

Senti o seu abraço forte e duradouro. Depois, pegou-me pela mão e levou-me para a sala, que estava iluminada por dois candelabros que seguravam longas velas brancas, que queimavam serenamente.


- Minha querida... – Sussurrei entre soluços agoniantes.


Ângela fixou-me, penetrando os seus olhos negros em mim. Não falou. O seu silêncio lúgubre levou-me a concluir que ela sabia o que tinha acontecido, tal como uma Deusa que conhece todos os passos do seu servo.

- Amo-te Abaddon.... – Murmurou ela com uma voz inexpressiva, pousando a sua mão suave sobre o meu cabelo.

Acabámos a noite a fazer amor. Amámo-nos como nunca, num clima de arrebatadora loucura e incessante desejo. Eu era louco por ela. Eu morria por ela. Eu matava por ela...


Às três e meia da madrugada, a porta da minha casa foi sacudida por violentas pancadas que me fizeram despertar numa perturbação inquietante. Ergui-me da cama e fui ver o que se passava. Olhei para Ângela também já estava acordada, mas mantinha uma expressão imperturbável.

- Quem está aí? O que quer? – Inquiri.

- Policia!...abra a porta imediatamente – Uma voz fria penetrou pela minha casa dentro, como um tiro no escuro.

Respirei fundo. Apertei o Baphomet (2) que trazia ao peito e abri a porta nervosamente. Tentei não demonstrar qualquer receio ou hesitação.


Deparei-me com três homens que se identificaram sendo da Policia Judiciária - estavam bastante sisudos.

Um deles ainda disse “boa noite”. O outro, que devia ser mais graduado, perguntou-me o nome e de seguida informou-me de que o Juiz de turno do tribunal de Aveiro emitira um mandato de captura, o que os obrigava a deter-me imediatamente.

Naquele instante senti-me como se o meu corpo tivesse ficado sem sangue. Olhei para o agente e ofereci-lhe os meus punhos, que ele agrilhoou com um par de algemas grossas e frias.


Abandonei a casa com os meus olhos fixos em Ângela, a quem eu dirigi um breve “amo-te muito” através dos meus lábios mudos. Depois fui abruptamente transportado para o Golf, que arrancou com grande velocidade.


Nas instalações da PJ fui sujeito a um extenso e fatigante inquérito por parte do chefe de brigada, que me informou sobre os crimes que eu era suspeito: Homicídio e tentativa de ocultação de crime.
Também me comunicou que havia testemunhas que declaravam ter-me visto no local do crime, na noite de sexta-feira, dia 13 de Agosto.


Ao fim de longas horas de interrogatórios, fui, por fim, guiado para  os calabouços húmidos, onde aguardei pelo desenrolar das investigações. Comecei a desconfiar que aqueles gajos deviam estar fazer “bluff” com aquela história das testemunhas, pois seria impossível alguém ter-me avistado por ali, até porque eu tinha tomado precauções para que ninguém me reconhecesse, ocultando sempre cuidadosamente o meu rosto.

Aguardei com a mais pura das descontracções que tudo se resolvesse, pois eu sabia que a polícia trabalhava mal, e jamais iriam encontrar as provas que me podiam incriminar de facto.


De manhã fui acordado pelo ruído perturbador do destrancar da porta gradeada da minha cela.


-Senhor José, venha comigo. – Ordenou o guarda prisional com uma voz firme.

- Com certeza, senhor guarda. Finalmente os “bófias” concluíram que estou inocente, não é verdade? – Indaguei eu, virando-me para o guarda que me escoltava.

-Não, senhor José. Você tem visitas!

- Visitas?... Quem? A minha Ângela? – Insisti ansioso.

-Não. São os seus pais! – A frase produzira o efeito de um tiro na minha cabeça. O guarda silenciou-se e isso deixou-me pensativo. Enquanto percorria o corredor que me levava à sala de visitas, o meu cérebro examinou todas as hipóteses de tal eventualidade ser real ou possível.

- Oh, deve haver um equívoco, os meus pais estão m... – o meu discurso fora interrompido pela imagem assombrosa dos meus progenitores, que se mantinham com um aspecto saudável e...”vivos”!

- Pai?... mãe?... – Balbuciei, incrédulo. Depois até sorri, por os ver ali (com vida), na minha presença. Por outro lado, persistia a dúvida pavorosa que me martelava o espírito – A quem tinha eu tirado a vida, afinal?...


A minha mãe estava com um ar de quem não dormia há algumas noites. Pegou no auscultador e desferiu-me um olhar de franca piedade antes de começar a falar.

- Porque fizeste aquilo, meu filho? – Indagou ela com um tom carregado.

- O que fiz eu?... – Perscrutei inocentemente. A minha franqueza levou-os a pensar que eu estava louco.

- Entraste na nossa casa e apunhalas-te os teus tios que tinham sido convidados para passar uns dias lá em casa. – Afiançou o meu pai com bastante frieza.

- Eu?...

- Sim. Nós estávamos na cozinha, e eles andavam lá por casa...mas quando tudo aquilo começou a acontecer, escondemo-nos na dispensa, com medo. Meus Deus! Filho, porque fizeste aquilo?...Ainda fomos a tempo de fechar o gás, senão também já não estaríamos aqui! – Proferiu a minha mãe entre soluços.


Após escutar as palavras dela, ainda levei algum tempo até compreender o erro que realmente tinha cometido. A falta de lucidez, causada pelo álcool, levara-me à perturbação dos meus sentidos, o que me impeliu para uma loucura desmedida, atacando os inocentes que me apareceram à frente, sem sequer imaginar, que poderiam ser outras pessoas, que não os meus pais.

Senti o sangue a enregelar-se-me nas veias, e deixei de sentir o chão sob os meus pés. Tinha voltado as costas à luz, e agora tudo à minha volta eram sombras.


A loucura, não é mais do que a destruição da armadura da nossa lucidez. Falar dos meus pensamentos, agora não faz nenhum sentindo, pois nada me afecta, excepto o terror de enfrentar estas barras de aço por onde espreito todos os dias, para me recordar que existe um mundo aí fora, muito diferente deste que eu suporto aqui, com grande amargura.

- Oh Ângela, meu amor – Berro eu todas as noites do fundo deste “inferno”, que é o meu calabouço...


Mas a minha querida Ângela nunca me respondeu.

Contos de Terror - Banquete

Contos de Terror - Banquete


Por Mirlene  Souza

O disco deslizava na vitrola com suavidade e preenchia o ambiente com acordes agradáveis de jazz. Era uma sala ampla, com janelas altas e envidraçadas. Do lado de dentro, cortinas de tecido translúcido flutuavam seguindo o ritmo da brisa que vinha de fora, desenhando um delicado balé em tons de amarelo e dourado. Mobília antiga, em madeira nobre e preciosos veludos e brocados, adornavam o grande cômodo ostentando riqueza e sofisticação. Tapetes caros, vasos de porcelana e um grande espelho francês sobre o aparador do século XIX. Tudo isso completava o cenário de luxo e opulência que aquela sala de jantar traduzia.

No centro, a mesa do banquete repousava solenemente sob a luz do enorme lustre de cristal. Longa, pesada e escura. Cercada por duas dúzias de cadeiras de espaldar alto, coberta pelos mais variados pratos e iguarias. A prataria reluzia, espalhando faíscas luminosas por entre as taças e garrafas de vinho e champanhe. Um porco descomunal descansava no meio da mesa, gorduroso e grotesco, abocanhando uma grande maçã, vermelha como sangue fresco. Pratos de guisados, tigelas de cremes e molhos de todos os tipos, bandejas de faisões e perus. Doces, tortas e bolos. Bifes exageradamente suculentos, pães de crosta grossa, peixes trazidos de mares exóticos e incontáveis tipos de frutas empilhadas em baixelas de prata. Um enorme caos de comida e bebida que pareciam não ter fim.

Sentado na cabeceira, o anfitrião estava satisfeito. Sentia um prazer peculiar rodeado por toda aquela confusão de cores, cheiros e sabores. A desordem da mesa lhe trazia uma espécie de excitação ao espírito e o deixava quase eufórico. Observava os convidados sem muita curiosidade. Gente que ele conhecia bem pouco, mal sabia seus nomes, onde moravam ou o que faziam. Uma moça loura com quem trocou algumas palavras num trem, um homem de meia idade que encontrou por acaso num bar, um jovenzinho que tentou lhe vender bilhetes de loteria, uma garçonete tagarela de um restaurante barato e mais uma dezena de outras figuras igualmente banais e desinteressantes.

Bebeu um longo gole de vinho. Pousou a taça e voltou a observar com prazer o banquete caótico e confuso. A comida ainda fumegava, disposta ao longo da mesa naquela falta de ordem e de cuidado que tanto lhe agradavam. As aves, os peixes, as sopas. Os pequenos bolos confeitados delicadamente com açúcar.  As carnes assadas com batatas e legumes. As taças de vinho viradas. As cabeças caídas sobre o peito ou dentro de pratos comidos pela metade. A moça loura sangrava pela boca e pelas narinas. O jovem vendedor de loterias ainda regurgitava o resto do creme de cebolas que acabara de comer. Alguns caíram das cadeiras enquanto se contorciam e se debatiam após o veneno começar a fazer efeito. Outros apenas tombaram as cabeças e morreram com mais tranquilidade. Mas no fim estavam todos mortos. Os olhos saltados. As bocas entreabertas. As faces em tons que variavam do roxo ao esverdeado. Mortos.


O anfitrião esvaziou a taça. Um fio avermelhado de vinho escorreu-lhe pelo canto da boca. Encarou o enorme porco com a maçã enfiada na boca. Sorriu, satisfeito. Naquela noite havia comido muito bem.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A Origem dos Gnomos

A Origem dos Gnomos, gnomo


Reconhece-se o a.D. 1200, o ano em que o sueco Frederick Ugarph encontrou uma estatua em madeira, muito bem conservada, na casa de um pescador na cidade de Nidaros (atualmente Trondhein), Noruega. A estátua de 15 cm de altura, sem contar o pedestal, trazia gravadas as seguintes palavras:


NISSE

Rikitg Stɸrrelse que significa “Gnomo, estatura real” 


A estátua estava em poder da família do pescador há muitos anos e Ugarph encontrou muita dificuldade ao tentar comprá-la, o que somente ocorreu após muitos dias de negociações. A estátua tem mais de 2.000 anos e que deve ter sido entalhada na raiz de uma arvore já extinta, cuja madeira é incrivelmente resistente. Segundo consta a inscrição no pedestal foi feita a muitos séculos após a estatua ter sido esculpida. A descoberta dessa estátua serve para ilustrar aquilo que os gnomos sempre afirmaram: que suas origens são escandinavas.


Foi somente após a Grande Migração dos Povos, no a.D. 395, que os Gnomos começaram a aparecer nos Países Baixos, provavelmente por volta do ano 449, quando o posto avançado romano na Britânia caiu sobre o julgo dos anglo-saxões e dos juntos. Existem evidencia a esse respeito numa carta escrita por Publius Octavus, sargento romano aposentado, dono de uma “Villa” e de algumas terras nos arredores da Lugdunum (atualmente Leiden, na Holanda) Publius não voltara a Roma por ter se casado com uma moça da cidade. Foi por muita sorte que sua propriedade não caiu nas mãos dos Bárbaros. Em sua carta, do ano 470, Publius Octavius disse:

“Hoje tive a oportunidade de ver uma criatura minúscula com meus próprios olhos. Usava um chapéu vermelho e camisa azul. Tinha barbas brancas e usava calças verdes. Disse que morava nessas terras a 20 anos. Falava a nossa língua, misturada com algumas palavras esquisitas. Desde então, tem conversado muitas vezes com aquele homenzinho. Disse-me ser descendente de uma raça chamada Kuwalden – uma palavra totalmente desconhecida para nós – e que existem muitos poucas iguais a ele em todo o mundo. Gosto muito de leite. De vez em quando, vejo-o no pasto cuidado dos animais”.


Durante aqueles tempos difíceis, quando Odoacer, rei dos alemães, finalmente conseguiu combater ate o último dos governantes do Império Romano Oriental, os Gnomos devem ter se estabelecido na Europa, na Rússia, na Sibéria, embora não existam informações precisas a esse respeito. Na verdade, os Gnomos não se interessam muito pela historia escrita, ou, pelo menos, assim o dizem. De qualquer forma, acredita-se que eles mantêm alguns arquivos secretos.



No livro de Wunderlich, de 1580, o autor menciona que, naquela época os Gnomos conseguiam manter uma sociedade sem diferença de classe por mais de 1000 anos. Com exceção do rei, que era escolhido pelo povo, não existem Gnomos pobres ou ricos, inferiores ou superiores. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais se utilizaram na Grande Migração dos Povos para uma renovação de costumes. Tudo é muito plausível ate o momento de mencionarmos um mapa (atualmente extraviado) a respeito de um reino de Gnomos onde existiam muitas minas de ouro Aparentemente, utilizavam-se, então, de mão-de-obra escrava para a extração de ouro e devem existir registros sobre alguns movimentos de revolta dos Gnomos escravos.


A fazermos o uso de informações esparsas, como as mencionadas acima, podemos concluir que os Gnomos procuravam entrar em contato com as pessoas da sociedade em que viviam e faziam parte integrante da nossa própria sociedade até uns 50 ou 100 anos antes do reinado de Carlos Magno(778-814). 



Texto do livro "Gnomos" - Leven En Werken Ven De Kabauter.

Gnomos

Gnomos


São espíritos muito antigos, seu nome vem do grego genomos, que significa subterrâneo ou em baixo da terra. Eles são criaturas de baixa estatura que moram nos subterrâneos e acredita-se que sua origem é da mitologia Européia, precisamente, na Escandinávia. 


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Podemos classificá-los como seres elementais da terra, e como vivem no subterrâneo, eles ajudam as sementes das plantas germinarem e guardam grandes tesouros, são grandes protetores da natureza e conhecem seus segredos como ninguém, não aceitam falar com os seres humanos, pois eles os rejeitam por degradarem a natureza, se movem através da terra solida assim como os humanos se movem através do ar, com isso, eles se introduzem nas profundas raízes das montanhas, e exploram os mais diversos tipos de minérios e tesouros existentes.


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É bem difícil vê-los, pois alguns se escondem, e já outros castigam as pessoas. Eles têm características de anões muito velhos e feios, e sua altura depende do tipo de gnomo que são. Alguns medem de 2 palmos até meio metro. Menores que isso, são os chamados Duendes.


Existem os gnomos benéficos e maléficos.

Os maléficos ou demoníacos, são seres humanóides disformes, de cores acinzentadas e fazem muitos estragos.


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Já os benéficos, são parecidos com duendes, que ajudam a natureza e a protege, usam toquinhas e barretes vermelhos e são ótimos trabalhadores.


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Quem consegue conversar com um gnomo, passa a ter muita sorte, e há pessoas que afirmam que se eles gostarem realmente do individuo que tem o dialogo certo com eles, pode até ganhar um dos tesouros que possuem.




Ceiuci / A Velha Gulosa

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Ceiuci também chamada de velha gulosa é uma fada do folclore indígena brasileiro que vive perseguida por uma fome bestial.

A lenda conta que Ceiuci estava pescando em rio quando viu a sombra de um homem dentro da água, quando lançou a rede nada pegou, o rapaz gargalhou e a velha ordenou as vespas com seus poderes atacarem o rapaz, mas este quebrou um galho de uma árvore e as espantou. A fada malvada ordenou então as formigas tocandiras, e o moço não podendo se livrar mergulhou no rio, em seguida Ceiuci o capturou com a tarrafa e levou-o para sua casa.

A velha gulosa deixou o moço no terreiro enrolado na tarrafa enquanto foi buscar lenha para fazer o fogo, para poder assá-lo e depois tentar saciar sua fome. A filha de Ceiuci ouviu gritos de socorro, ficou com pena do homem e o soltou, colocou em seu lugar um pilão com cera de abelha e disse para ele:

-Fuja daqui para muito longe, quando ouvir o canto da cã-cã, esconda-se bem, por que minha mãe estará perto de lhe pegar, leve estes paneiros mágicos que ela os usa quando não consegue caça na mata e esta sempre com fome, quando você a vir atire-os em cima dela.

O homem agradeceu a filha de Ceiuci e partiu. 





A velha voltou com a lenha e acendeu uma enorme fogueira, quando o fogo ficou alto, ela atirou a tarrafa e estranhou por não ouvir nenhum gemido ou grito, quando sentiu o cheiro de mel, tirou o pilão do fogo e perguntou para sua filha o que significava, se ela não dissesse, a engoliria viva.

A filha de Ceiuci disse que ficou com pena e mandou o rapaz ir embora, então a velha gulosa ao ouvir isso, correu atrás dele farejando o seu cheiro, o rapaz ainda estava no meio do caminho de sua casa que era muito longe, e parou para descansar, mas ouviu a cã-cã e teve de se levantar para correr mais, já ouvindo os berros estrondosos da velha perto dele, se lembrou do conselho da filha de Ceiuci e atirou um dos paneiros para traz. Tal paneiro se transformou em um porco-do-mato. A velha devorou o bicho inteiro e continuou a perseguição.


Velha Gulosa, ceiuci


Os outros paneiros foram atirados, e todos do mesmo modo foram engolidos pela velha insaciável, então o moço avistou macacos em cima de árvores e os pediu esconderijo, os macacos jogaram ele dentro de um pote de mel e a velha farejou, mas apenas sentiu o odor doce, passou adiante.

O moço saiu correndo do pote de mel dos macacos, já estava feliz pensando que estava livre da velha gulosa, quando novamente ouviu a cã-cã, correu mais e avistou uma enorme serpente, pediu-lhe proteção e a cobra o escondeu dentro de uma cova, mas ouviu-a dizer a sua companheira:

- Deixa a Ceiuci passar, e nos duas o comeremos.

O homem pulou fora da cova e pediu que um pássaro comesse as duas serpentes, depois disso fugiu e atravessou um rio, logo chegou a sua casa e nunca mais viu a velha gulosa.


Velha Gulosa, ceiuci

Negrinho do Pastoreio

Negrinho do Pastoreio


Um homem muito rico, que possuía muitas terras era egoísta e mau, não dava esmola aos pobres nem ajudava ninguém. Tinha um filho perverso e um escravo, pretinho como carvão, era bondoso e todos o chamavam de Negrinho.

O escravo era pagão, não possuía padrinhos nem nome, se dizia afilhado de Nossa Senhora, que é a madrinha dos que não a têm
. Antes de amanhecer o dia, o Negrinho montava em um cavalo baio e saia para pastorear o rebanho do seu senhor. Trabalhava o dia todo e quando voltava a noite para casa, ainda tinha que sofrer as maldades do filho do estancieiro.

Certa vez, um vizinho disse que o seu cavalo era mais veloz que o baio do estancieiro e desafiou este para uma corrida. Apostaram uma grande quantia de dinheiro. O estancieiro mandou que o Negrinho montasse o seu cavalo. Mas, quase no fim da corrida quando já estava na frente, o baio se espantou e o outro cavalo venceu a corrida.

O Estancieiro ficou indignado por ter perdido a aposta e colocou toda a culpa no Negrinho. Chegando em casa, deu no escravo uma surra de chicote até ver o sangue escorrer. E no dia seguinte pela madrugada, ordenou que ele fosse pastorear trinta cavalos durante trinta dias, num lugar muito distante e deserto. Lá chegando com muitas dores no corpo, o escravo começou a chorar enquanto os cavalos pastavam. Veio à noite escura, apareceram as corujas, e o negrinho ficou tremendo de pavor. Mas, de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora, então se acalmou e dormiu.

Durante a noite, os cavalos se assustaram e fugiram pelo campo, espalhando-se. O Negrinho acordou com o barulho, e nada pôde fazer, por que a cerração era muito forte. Com isso, o filho do estancieiro apareceu e maldosamente foi contar para o pai o que havia acontecido que o Negrinho tinha deixado de propósito os cavalos fugirem.


Negrinho do Pastoreio


O estancieiro mandou surrar novamente o escravo. E, quando já era noite fechada, ordenou-lhe que fosse procurar os cavalos perdidos. Gemendo e chorando, o Negrinho pensou na sua madrinha, Nossa Senhora, e foi ao oratório da casa, apanhou um coto de vela que estava aceso diante dá imagem e saiu pelo campo.
Por onde o Negrinho passava, a vela ia pingando cera no chão de cada pingo nascia uma nova luz. Em breve, havia tantas luzes que o campo ficou claro como o dia. Os galos começaram a cantar e, então, os cavalos foram aparecendo, um por um... O Negrinho montou no baio e tocou os cavalos até o lugar que o senhor lhe marcara. Gemendo de dores, o Negrinho deitou-se. Neste momento, todas as luzes se apagaram. Morto de cansaço, ele dormiu e sonhou com a Virgem, sua madrinha. Mas, pela madrugada, o filho perverso do estancieiro apareceu, enxotou os cavalos e foi dizer ao pai que o Negrinho tinha feito isso para se vingar.
O estancieiro ficou mais furioso ainda, e mandou surrar o Negrinho novamente. O pequeno escravo não suportando tanta crueldade chamou por Nossa Senhora, soltou um suspiro e pareceu morrer.

Como já era noite e para não gastar enxada fazendo cova, o estancieiro mandou jogar o corpo do menino em um grande formigueiro para que as formigas lhe devorassem a carne e os ossos.

No dia seguinte, o homem voltou ao local para ver o que restava do corpo. Qual não foi seu espanto quando viu, de pé, sobre o formigueiro, vivo e risonho, o Negrinho, tendo ao lado, cheia de luz, Nossa Senhora, sua madrinha! Perto, estava o cavalo baio e o rebanho com os trinta animais. O Negrinho pulou sobre o baio, beijou a mão de Nossa Senhora e tocou o rebanho, a galope.

Correu pela vizinhança a triste notícia da horrível morte do escravo, devorado num formigueiro. E, pouco depois, as pessoas começavam a comentar o novo milagre. Muita gente já vira à noite um rebanho tocado por um negrinho montado num cavalo baio.

E daí por diante, quando alguém perdia alguma coisa, rezava para o Negrinho e ele sai à procura. Mas só entregava o objeto a quem acendesse uma vela cuja luz ele levava ao altar de sua madrinha, Nossa senhora. Até hoje, dizem que quando perdemos alguma coisa devemos pedir ajuda ao Negrinho do Pastoreio e que ele aparece em cima de um cavalo para ajudar.


Negrinho do Pastoreio